Segunda-feira, 14 Setembro , 2026
Sebrae
Início BrasilBrasil precisa negociar contrapartidas para expansão de data centers no país, defendem pesquisadores

Brasil precisa negociar contrapartidas para expansão de data centers no país, defendem pesquisadores

por Duda Amaral
A+A-
Reset
Brasil precisa garantir contrapartidas para receber data centers

A expansão dos data centers no Brasil deve ser acompanhada por regras claras, políticas públicas e mecanismos de controle que garantam benefícios econômicos, tecnológicos e sociais ao país. O tema foi debatido nesta segunda-feira (27), durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Pesquisadores alertaram que o crescimento desses empreendimentos ocorre em um momento de aumento da demanda por infraestrutura para inteligência artificial e serviços digitais. Na avaliação dos especialistas, a ausência de critérios para negociação, fiscalização e participação social pode ampliar impactos ambientais, pressionar recursos naturais e limitar ganhos estratégicos para o desenvolvimento nacional.

DATA CENTERS EXIGEM REGRAS E CONTRAPARTIDAS

Durante o debate, os professores Mauro Oliveira, do Instituto Federal do Ceará (IFCE), e Dan Levy, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), defenderam que a instalação de grandes centros de processamento de dados seja acompanhada por planejamento e participação da comunidade científica.

Para Mauro Oliveira, o país precisa estabelecer condições para receber novos investimentos e evitar que a expansão da infraestrutura tecnológica siga uma lógica baseada apenas na exploração de recursos naturais.

“O problema não é receber data centers. O problema é receber esses investimentos sem negociação. O Brasil precisa definir o que quer exigir em troca”, disse Mauro.

O pesquisador afirmou ainda que universidades, governos e sociedade civil precisam participar da discussão sobre os critérios para implantação desses projetos, considerando aspectos ligados ao consumo energético, à soberania digital e ao controle da infraestrutura tecnológica.

CONSUMO DE ENERGIA PREOCUPA ESPECIALISTAS

Como exemplo, Oliveira citou o projeto de instalação de um grande data center voltado à inteligência artificial no Ceará. Segundo ele, a unidade poderá consumir cerca de 300 megawatts de potência, volume suficiente para abastecer milhões de pessoas.

Na avaliação do professor, o avanço acelerado da inteligência artificial amplia a necessidade de infraestrutura elétrica, tornando o planejamento energético um dos principais desafios para o setor.

“O mundo, hoje, não consegue produzir energia suficiente para atender à demanda projetada pelos data centers de inteligência artificial”, disse.

Além da capacidade energética, o pesquisador defendeu a criação de mecanismos permanentes de auditoria, monitoramento e transparência para acompanhar a implantação e a operação desses empreendimentos.

“O papel das universidades é participar desse debate. Não somos contra os data centers. Somos contra a ausência da universidade na discussão sobre as condições em que eles estão sendo implantados”, disse.

IMPACTOS AMBIENTAIS E SOCIAIS ENTRAM NO DEBATE

Sob a ótica do direito ambiental, Dan Levy destacou que os efeitos provocados pelos data centers vão além do elevado consumo de água e energia.

Segundo o pesquisador, também devem ser considerados fatores como poluição sonora, pressão sobre recursos naturais, conflitos pelo uso do território, aumento das desigualdades sociais e impactos sobre comunidades em situação de vulnerabilidade.

“A transição digital e a transição ecológica não podem ser tratadas como processos independentes. É preciso incorporar critérios de sustentabilidade, transparência e participação social”, defendeu o pesquisador.

Levy afirmou ainda que as populações diretamente afetadas pelos projetos precisam participar das decisões relacionadas à instalação dessas estruturas, em vez de apenas absorver seus efeitos.

SOBERANIA DIGITAL TAMBÉM ESTÁ EM DISCUSSÃO

Durante o encontro, o pesquisador relacionou a expansão dos data centers ao conceito de colonialismo digital. Segundo essa perspectiva, países do Sul Global acabam fornecendo recursos como energia, água e território para sustentar a infraestrutura tecnológica de grandes empresas sediadas em países desenvolvidos.

Para os especialistas, o avanço desses empreendimentos tende a intensificar o debate sobre regulação, sustentabilidade e soberania digital, temas que devem ganhar espaço nas discussões sobre a política tecnológica e energética brasileira.

“A gente não é contra o desenvolvimento. A questão é como esse desenvolvimento é realizado e quem suporta seus custos”, concluiu.


Com informações de Agência Brasil

    Você também pode gostar